O bizarrinho, mas delicioso, siri de coral (AL)

Desde que minha mãe contou uma história, há muito tempo, sobre siris e o corpo de um homem afogado numa praia do Litoral Norte, eu decidi nunca mais comer esse crustáceo. A {já pouca} simpatia pelo bicho azul terminou de acabar quando eu pisei em um exemplar na praia de Pontas de Pedra, enquanto caminhava feliz numa piscininha natural sob o céu azul sem falhas e o sol tinindo. Tudo escureceu. Ainda consigo sentir ele se movendo na areia embaixo do meu pé e isso me dá arrepios. Eu poderia ter desenvolvido um extinto vingativo e exterminado centenas desses animais arrancando patinhas e sugando o conteúdo do seu interior, mas preferi manter distância (tática que utilizo contra meus inimigos). Segui minha vida devorando caranguejos, uma das coisas que mais gosto nessa vida, sem nunca dar chance a siri algum até que fui apresentada ao siri de coral. Tem uns três anos que o provei pela primeira vez – não sem antes fazer cara de nojinho – e fiquei embasbacada como uma coisa tão bizarra consegue ser deliciosa na mesma proporção.

A diferença do siri de coral para os outros é, justamente, o coral: parte alaranjada que fica presa no interior da carapaça do animal. É preciso abrir a cabeça dele para encontrar essa iguaria que não é bela, muito menos apetitosa, mas é muito MUITO gostosa. Não consigo encontrar semelhança com outros sabores para fazer a comparação. Só tendo coragem de provar.  Como eu nutro esse desgosto por siri, só traço o coral e libero as patinhas pra galera. Me disseram alagoanos – com anos de experiência na matança – que esse bicho só existe em Alagoas e, na teoria, pescá-lo é ecologicamente incorreto. Pelas bandas do litoral desse estado, no entanto, é comercializado sem pudores. Esse eu comi na Massagueira, complexo de restaurantes às margens de uma lagoa linda, no município de Marechal Deodoro. Se você tiver a oportunidade, não deixe de jeito nenhum de experimetar.

Siri de Coral 1 Foto: Milenna Gomes/NaoSeiCozinharsirisiriIMG_9711CORAL Não se engane, isso é tão bom que deveria valer milhõesmassagueiraMASSAGUEIRA Vista da varanda do restaurante

Milenna Gomes

Criadora do NSC, Milenna é jornalista de gastronomia e mestranda em história da alimentação na Universidade de Coimbra. Recifense vivendo em Portugal. Críticas e sugestões: contato@naoseicozinhar.com

4 Comentários

  • Responder setembro 25, 2013

    Marcela

    A foto do interior do bicho não é nem um pouco atraente. Semelhante a você, querida Milenna, também não consigo comer siri, porque me vem à mente, quase automático, a fala de vovó dizendo: “Siri come carne humana dos cadáveres jogados no rio”.
    Medoooo!!!
    Prefiro o bom e velho caranguejo!

  • Responder março 15, 2014

    Renata

    Ta… mas os rios nao vivem repletos de cadaveres p esses siris comerem num periodo mt curto, tipo 1 ano e meio… Q seria sua curta vida! Eu sei que eh mt bom!!!

  • Responder março 31, 2014

    Geyson Monte

    Eu já comprei aqui em Recife uns siris que vieram de Sergipe e eles vão para engorda em tanques onde se cria camarão para comercialização. Eles são muito grandes e o sabor da carne é adocicada. Nunca mais esqueço do sabor excelente. Pena que nunca mais encontrei para comprar.

  • Responder março 25, 2017

    Flávio

    Gosto de fígado de frango, só que mais macio.

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