No meio do quilombo havia uma Rosa

Esse post poderia ser bem mais completo. Os personagens mereciam. Não tinha papel e caneta na hora, erro mais que grave para um jornalista, então anotei tudo (números, nomes, pequenos detalhes) no rascunho do celular. Eu e minha mania  de deixar as coisas para depois não copiamos as informações para outro lugar, então, num domingo desses, tiraram meu telefone da bolsa porque eu sou lerda e esse tipo de coisa acontece comigo. Chorei de raiva na hora por estar perdendo algo, por me sentir frágil e desprotegida, pela desonestidade das pessoas, mas, principalmente, pelas histórias que tinham alí e não vou mais poder contar com fidelidade. O registro vai de acordo com minha memória e coração. Para contextualizar, fiz uma viagem de carro de Recife até o Ceará com o namorado, Felipe, e mais dois amigos, Joaquim Izidro e Emerson Calado. Companhias mais do que agradáveis e divertidas. No caminho, passamos por Conceição das Crioulas, um quilombo em Salgueiro, no Sertão de Pernambuco.

Foto do topo: Vip é dudu, sacolé, geladinho, aqueles picolés de saquinho que custavam, na minha época, dez centavos e todo fiteiro tinha!

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Lá, enquanto os companheiros de viagem trabalhavam, eu me infurnei na casa de Rosa pra conversar. E, gente, eu fui tão bem recebida! Ela é quilombola, tem sangue negro misturado com de índio, e é dona de um fiteiro no quilombo. Doce de leite e cocada são especialidades dela. Deliciosos! A gente papeou tanto que eu nem vi a vida passar – e olha que eu a tinha conhecido só algumas horas antes. Fiquei um tempão, e ela nem ligou, perguntando da rotina, da infância dela, futucando a casa, vendo e tirando fotos. Tudo pra entender como é crescer e viver num quilombo nos dias de hoje. Na maior paciência e bom humor, me levou no quintal e mostrou o forninho que construiu para fazer os doces (R$ 1 cada). Contou como precisava viajar 30km pra conseguir o leite da receita – que aprendeu para preparar, vender e sustentar sozinha as duas filhas. Lembrou que nesse mesmo caminho, num acidente de carro, uma delas morreu quando ia fazer uma apresentação musical em Salgueiro. Rosa ficou com o neto pra criar. Falou que não ligava em morar ao lado do cemitério do quilombo porque sentia que a mãe e a filha tomavam conta dela. Aí coou um cafezinho pra mim, esquentou o munguzá salgado para eu experimentar – é com feijão e eu não sabia -, não me deixou pagar parte das cocadas que eu ia levar e ainda pediu para eu ficar mais um pouquinho quando chegou a hora da minha viagem seguir caminho. E eu bem que ficava se desse. Me despedi, garanti que um dia voltaria para uma visita e disse que escreveria sobre ela aqui.

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Milenna Gomes

Criadora do NSC, Milenna é jornalista de gastronomia e mestranda em história da alimentação na Universidade de Coimbra. Recifense vivendo em Portugal. Críticas e sugestões: contato@naoseicozinhar.com

8 Comentários

  • Responder fevereiro 3, 2012

    Marcela Balbino

    “Aí coou um cafezinho pra mim, esquentou o munguzá salgado para eu experimentar – é com feijão e eu não sabia ”

    Olha, na nossa incursão por Salgueiro fizemos um podcast falando, entre outras coisas, das comidas do Sertão. Ficou muito divertido, eu ri na maior parte do tempo, mas os outros integrantes conseguiram interagir mais. Assim como você, fiquei muito surpresa ao descobrir que o mugunzá de lá é salgado, muito estranho. Dá uma ouvida depois.
    http://www.recifestranho.blogspot.com/2012/01/recifestranho-participa-de-podcast.html

  • Responder fevereiro 3, 2012

    Marta Souza

    É por esse tipo de história que vale a pena ser jornalista, não é?! Parabéns!

  • Responder fevereiro 3, 2012

    anny stone

    Emocionou, Millena! Curto tua forma leve e sincera de escrever. Vontade de conhecer dona Rosa!
    ps: que fotos lindas, babei.

  • Responder fevereiro 3, 2012

    Mayara

    Fico cheio de orgulho cada vez que vejo uma reportagem dessa. Dá orgulho! Eu nem gosto de cocada, mas com esse post aqui, me deu até vontade de experimentar…

  • Responder fevereiro 4, 2012

    Rodolfo Nícolas

    Esse tipo de cocada é boa demais, e com um vip de morango ou de biscoito, é madeira de dar em doido! Quando voltar a visitar dona Rosa, me traga uma dessas cocadas.

  • Responder fevereiro 11, 2012

    Arjuna

    Parabéns, Mi! Que linda transmissão dessa sua experiência!

  • Responder fevereiro 13, 2012

    Alexandre

    Ótimo post!!!

    Meu nome é Alexandre, sou redator e fotógrafo do Selo Reserva, novo site voltado para o mercado de enogastronomia. Estamos nos preparando para lançar a versão Beta e acredito que você gostará do conceito. Neste primeiro momento disponibilizamos uma página virtual de apresentação: http://www.seloreserva.com.br/

    Se puder, não deixe de acompanhar nossas atualizações na rede social – facebook.com/seloreserva

    Vamos manter contatos,
    Att.
    Alexandre Sobral R. Horta
    alexandre.horta@seloreserva.com.br

  • Responder junho 12, 2012

    Ara Lúcia

    Mi que coisa linda, to aqui vendo tudo e babando, ta tudo lindo demais. Parabens!!!

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