No Cá-Já, nos Aflitos, come-se e recebe-se à brasileira

“Comer à brasileira tornou-se marginal”, disse Carlos Alberto Doria em seu Formação da Culinária Brasileira. E o que ele sintetizou com isso? Que não dá pra ser phyno comendo cuscuz, aprendemos. E quanto mais exótico, caro, exclusivo, afastado do que é considerado local e caseiro, melhor. Chique, mesmo, é consumir produto importado, de preferência, trabalhado por chef internacional, em restaurante com talher de prata, toalha de linho e porcelana francesa. Não vou nem falar de preço e da ideia de que tudo o que é bom é caro. Desde o francesismo que tomou o Brasil no século XIX e arrebatou o coração da burguesia, fomos sendo forjados a achar bonito e top o que é de fora.

Fiz essa introdução toda para dizer que o Cá-Já tira da sarjeta a culinária e o modo de servir à brasileira (com simplicidade e fartura), dá um banho de Alma de Flores, coloca roupa nova e engomada e ainda salpica uns gotinhas de colônia por cima pra ficarem cheirosos. O Cá-Já é, literalmente, casa. Um imóvel dos anos de 1950, nos Aflitos. Mas é, também, no sentido não literal. É coração de galinha, fava, macaxeira, quintal cheio, sorriso largo na porta, mesa generosa, aconchego, tomar dudu, suco de acerola, levar a manga que caiu do pé, lamber o brigadeiro na colher, relaxar na sombra. É uma eterna tarde de domingo, vontade de ficar mais um tiquinho pra jogar conversa fora e tomar um café passado na hora, com biscoitinhos feitos diariamente pela mãe dos proprietários.

Entrada linda com quadros e tijolinhos aparentes. Foto: Wagner Ramos/Divulgação

Esse povo sabe escolher decoração.  Se um dia sumir um, não fui eu. Foto: Wagner Ramos/Divulgação

Leques para aplacar o calor e ser diva. Foto: Wagner Ramos/Divulgação

É difícil não amar um lugar que adota uma casa, casa mesmo, para fincar morada. Com tanta porta de vidro, ar condicionado, arquitetura arrojada, ambiente impessoal se batendo por aí, olhar por cima do muro baixinho e entrar pela grade pintada de branco é como chegar na casa de voinha para o almoço. O quintal está lá, as plantas e o acolhimento também. Só falta o cachorro sair desembestado pra vir te lamber. O Cá-Já tem provocado uma nostalgia coletiva (por isso a fila na porta), uma saudade da casa de alguém que a gente já gostou muito – ou sequer conheceu – e não pode mais visitar. Tem vida, sabe?

“Vem pra cá já”, sacou?

É o lugar mais mais hype que existe na Cidade hoje e há motivos para isso – além do fato de Alan, um dos sócios, ser muito pop e aparentemente conhecer todas as pessoas desse país chamado Recife. São muitos os detalhes apaixonantes. A começar pela essência da comida: genuinamente brasileira, invariavelmente fresca, com ingredientes garimpados em pequenos produtores e feirinhas orgânicas. O Cá-Já é agroecológico REAL-OFICIAL. E se já é uma delícia comer das caçarolas de Yuri Machado, o chef, melhor ainda quando a consciência está tranks e em paz com a natureza e a economia local.

É impossível passar incólume ao rosa millenial escolhido para pintar o imóvel, cor tendência de 2017. A pinta começa logo na fachada! E continua com os leques e os chapéus que recebemos para aliviar o calor. O lugar é de um bom gosto… E reúne uma pá de gente bacana na estrutura: a carta de drinques é do super premiado Luciano Guimarães (hoje fixo no Pina Cocktails & Co.), o café é da musa maior Lidiane Santos, do Kaffe Torrefação e Treinamento. As louças são de colocar na bolsa e levar escondido – não tô dando ideia -, do coletivo de Cerâmicas do Cabo. E vocês PRECISAM seguir o Cá-Já no Instagram: a conta é tão simpática que dá vontade de chamar pra tomar uma cerveja. E todas as fotos postadas tem #PraCegoVer, com a descrição bonitinha da imagem, assim deficientes visuais conseguem saber o que tem na tela. Bicho, é MUITO AMOR num canto só.

E eu ouço de verdade a playlist deles no Spotify porque a seleção é finíssima.

ALMOÇO

No Cá-Já você pode ter duas experiências diferentes, o almoço e o jantar. De dia, os pratos de substância são generosos, para compartilhar mesmo. No fim de semana, o almoço tem opções diferentes, como o caruru de entrada e o rosbiche (rosbife tratado como ceviche), esse regularmente só disponível no jantar. Sugiro muito pedir as entradinhas e ficar bebericando, talvez você nem queira almoçar. O sururu é muito bem servido e faz às vezes de prato principal. A salada de polvo é bem leve e fresquinha, funciona para abrir o apetite. Nesse dia de confra, pedi a galinhada, mas invejei a favada dos colegas do lado.

Eu, meu suco de acerola e o caruru de entrada, cheio de camarão e que vale por uma refeição. R$ 11,90

Outras entradinhas: salada de polvo (R$ 32,50) e sururu deeeeeli e super bem servido (R$ 14,90).

Galinhada da mama: arroz cremoso, pele crocante, legumes grelhadinhos. Serve dois. R$ 58,90

MELIOR PRATO! Favada com carne de sol desfiada. Acompanha vinagrete e farofa. Enche o bucho de dois ou mais, se pegar pra petisco. R$ 60,60

Arroz vermelho molhadinho e camembert maçaricado. Prato veggie servido no jantar, mas o chef abre exceção para os vegetarianos do almoço. Individual, mas satisfaz dois facinho. Já dividi, inclusive. R$ 34,90

JANTAR

No jantar, os pratos continuam com porções caprichadas, mas são individuais e diferentes do almoço. Os petiscos mudam também. Não fiz foto, mas o rosbiche (R$ 30,70), rosbife mergulhado em leite de tigre como um ceviche, tocou meu coração de uma forma… Fiquei bebendo o caldinho e molhando o chips de batata doce até onde foi aceitável socialmente. O Ca-Já é casa de vó, mas se a minha me visse entornando restinho do prato na boca me daria uma tapa. haha Vontade não faltou. Os bolinhos de siri são imperdíveis para beliscar. Macios, bem recheados, bem temperados – por ali tem um dendê -, é pra comer de muito. Numa primeira vez, dividi essas duas entradas e uma arroz veggie com uma amiga e saímos direto pra correr na Jaqueira na esperança de diminuir a pança. Bastante comida mesmo.

Numa segunda vez, me abracei com o arroz de saramunete, esse peixinho tão bom, mas tão maltratado, e fui bem feliz. Não provei, mas a picanha chegou na mesa num ponto lindo. E quem vê cara não vê coração de boi. O espetinho de coração bovino foi aprovado por quem pediu, eu ainda vou trabalhar muito meu emocional para isso. Não deixem de provar o drinque da casa, com rum. Na lista das minhas coisas favoritas do restaurante. Junto com as sobremesas de casa de tia. Bolinhos de chuva com doce de leite de cabra (R$ 15,40), creme de maracujá com farofinha da própria casca da fruta com açúcar e gelatina de hibisco (R$ 14,30) e brigadeiro de colher com chocolate amargo (R$ 9,90).

Drinque Cá-Já (R$ 17,90) e ceviche (R$ 27,70) pra começar

Bolinhos de siri: favor produzir e servir em baldes, agradecida. R$ 26,90

Vidinha de prato ♥ Saramunete com arroz de moqueca, R$ 39,90

Picanha, macaxeira, ovo e cebola. R$ 37,70

Coração de boi aprovadíssimo por quem comeu. R$ 36,90

Mix de sobremesas de casa de tia para quem tem problemas em escolher, no caso eu. Bolinho de chuva, briga de colher e creme de maracujá

QUEM COZINHA E FAZ O CÁ-JÁ

Alan, Marina e Yuri formam o trio por trás do restaurante. Que encaixe legal. Yuri Machado tem 29 anos,  é formado pela UFRPE, passou, no Recife, pelo Ponte Nova e Thaal Cuisine. Andou pelo D.O.M, em São Paulo, de Alex Atala, e circulou cozinhando com o Cirque du Soleil. Ainda afinou a técnica em diversos restaurantes em Nova York (EUA) e em Lima, no Peru. Chegou aqui já colocando siri, caruru, coração de galinha e saramunete no menu. Olhe, eu fico genuinamente empolgada com o que esse menino ainda vai fazer. Aí tem Alan Machado, irmão dele, com 15 anos de experiência em hotelaria e restaurantes. Uma pessoa que sabe receber. E como sabe. É ele quem te pega na porta, te abraça com sorriso. E pra dar a cola, Marina Moneta, também de hotelaria, mas especialista em gestão e finanças. A pessoa que faz a roda girar (soube até que se não fosse ela, todos acordariam e iriam dormir chorando).

Ou seja, o Cá-Já tem cozinha, tem salão, tem gestão. É daqueles lugares que já nascem tradicionais e vão só melhorando com os anos. Escrevi demais, né? É porque vocês não me viram falando de lá. Amo o Cá-Já. É casa de alegria.

Yuri Machado, chefe do Cá-Já

Serviço

CÁ-JÁ Restaurante
Endereço: rua Carneiro Vilela, 648, Aflitos
Funcionamento: Almoço – quinta a domingo, das 12h às 15h; Jantar – terça a sábado, das 19h às 23h
Informações: 3126.0648 (não aceita reserva)
Instagram: @vempracaja

Milenna Gomes

Criadora do NSC, Milenna é jornalista de gastronomia e mestranda em história da alimentação na Universidade de Coimbra. Recifense vivendo em Portugal. Críticas e sugestões: contato@naoseicozinhar.com

13 Comentários

  • Responder janeiro 16, 2018

    Wandré Silva

    Boa noite Millenna linda matéria, deu água na boca.

  • Responder janeiro 16, 2018

    Mordecai

    Quando virar filme, eu assisto. Texto longo demais, só pra falar de restaurante de bacanas. Quem escreveu o texto vai almoçar de graça no Cá ja pelo resto do ano.

    • Responder janeiro 17, 2018

      Fernando Barreto

      Que mal humor!!! Vixe!

  • Responder janeiro 16, 2018

    Vanessa

    O Cá Já é lindo, acolhedor e com um tempero delicioso! <3

  • Responder janeiro 16, 2018

    Sueli

    Pode até não prestar, mas o cabra falou de modo atrativo, vou lá testar, para ver se ele só falou bonitinho ou ratificar. Valeu. Não os conheço, mas torço pelo sucesso. Final de semana, passo por aí.

  • Responder janeiro 16, 2018

    Rosângela

    Já fui, provei e adorei. Aconchegante e comida maravilhosa com precinho ótimo. Não deixem de conferir!

    • Responder janeiro 17, 2018

      Jupira Souza

      Vou passar lá para provar aquelas gostosuras!

  • Responder janeiro 17, 2018

    NADIR ACIOLY

    Pretendo conhecer. Ta-Já no meu programa com a Família e amigos.

  • Responder janeiro 17, 2018

    silvio

    O lugar é aconchegante! Mais os preços não são em conta tem mais barato por ai!

  • Responder janeiro 17, 2018

    Martha Vasconcelos

    Texto muito longo. Mas como estou de férias, li. Gostei. Mas como foi falado antes tem mais em conta. Comida de mãe com ar de casa, mas com chefs e gente fina tem que ser caro. Com toda a pompa e se dizendo “preços em conta”, não achei nenhum preço em conta. Prato fartos? Pra quem? Acho que pra quem quer bater papo e beslicar está bom. Mas vou ficar com os que realmente sei que servem comida brasileira de verdade e não com sotaque e toque francês e se dizendo daqui. Fica o comentário em um país que se diz democrático.

  • Responder janeiro 17, 2018

    Martha Moreira

    Fui conhecer mas não foi uma experiência muito boa. A galinha estava muito salgada e quando reclamei a garçonete me disse que só nós reclamamos. E calor estava insuportável! Muito desagradável mas os donos muito simpáticos. Tomara que melhore pois a proposta é muito boa!

  • Responder janeiro 17, 2018

    Anna Mendes

    É sensacional!
    Tudo é incrível nesse restaurante. Os sabores, o atendimento, a música, a decoração e os preços são honestos. Sem firula. Amo o conceito. Vida longa ao Cá-Já!

  • Responder janeiro 21, 2018

    Eduarda

    Ola! Voces repararam se o cardapio oferecia opcoes vegetarianas/veganas? Obrigada:)

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