Matéria Istoé | Alta gastronomia na prisão

Gostei demais dessa matéria da Istoé e resolvi colocar aqui para quem não viu dar uma olhadinha. É sobre uma iniciativa bem legal de reabilitação de assassinos, assaltantes, traficantes, por meio da gastronomia. Os presos elaboram e preparam os pratos que são servidos em um restaurante dentro da penitenciária. Tudo devidamente monitorado, né? Eles utilizam fogo e objetos cortantes para cozinhar. Mas, confiança em primeiro lugar! É a base de qualquer relação. uahshasu Queria ver algo parecido dando certo no Brasil. Acho, no entanto, que, por aqui, seria como ir pedir a última refeição.

Um castelo da região da Toscana irá abrir seus portões para um evento, no mês que vem, cujo dinheiro arrecadado, R$ 4,2 mil, será enviado à associação beneficente brasileira Ágata Esmeralda (que atua com iniciativas de adoção de crianças à distância). Sob luz de velas, 120 pessoas irão saborear um jantar composto por um aperitivo, um antipasto, dois primeiros pratos com dois tipos de massas diferentes, um segundo prato e um doce de sobremesa. As reservas para esse dia foram feitas – e se esgotaram – em janeiro. Sortudos? Depende do ponto de vista. O castelo, conhecido como Fortezza Medicea, é uma construção do século XV, fica em Volterra, próximo de Pisa, e abriga 150 condenados a penas que vão de 20 anos de reclusão à prisão perpétua. Ali, atrás dos muros de 60 metros, acontece, oito vezes por ano, o Jantar dos Condenados.

Na ocasião, o restaurante do castelo fica tomado por assassinos, assaltantes e mafiosos que, junto com um chef renomado convidado, organizam, cozinham e servem o menu para os clientes. Abrir o restaurante da prisão para que condenados sirvam pessoas sem dívida com a Justiça (sim, porque todos os interessados em efetuar uma reserva devem, antes, informar o número da carteira de identidade e aguardar a aprovação de sua ficha) é uma iniciativa que, em Fortezza, acontece desde 2006. Devidamente trajados e treinados, os cerca de 30 presos têm a liberdade de, na cozinha e sob olhares atentos de policiais penitenciários, manusear talheres de metal, objetos de vidro e produtos com álcool. No ambiente onde o jantar é servido, porém, os talheres são de plástico.
Nenhuma ocorrência foi registrada com os 50 detentos que já trabalharam no restaurante. Cada um deles recebe R$ 70 por jantar e são avaliados a cada evento. “A atividade também é parte de um processo de reeducação que, se considerado positivo, dá direito a uma redução de pena a cada seis meses”, explica Paolo Iantosca, inspetor de polícia penitenciária do local. Cerca de dois mil clientes já desembolsaram R$ 80 para provar o menu fixo. Todos, porém, só puderam sentar à mesa depois de deixar seus celulares, casacos e objetos cortantes fora do restaurante. Procedimento de segurança idêntico acontece no inglês The Clink, o primeiro restaurante comercial de luxo a funcionar dentro de uma prisão daquele país, no caso a Her Majesty’s Prision, em Surrey.

Lá, o chef e o maître são ex-detentos que cumpriram pena por tráfico de drogas. Profissionalizaram-se e, hoje, também ensinam colegas e ex-colegas de cela os segredos da gastronomia sofisticada. Só no ano passado, 38 presos receberam treinamento. Atualmente, 20 deles servem as iguarias, como o filé de robalo grelhado com cebolinha, soja, limão e gergelim, acompanhado de arroz de coentro e bolo de cenoura. Muitos desses ingredientes vêm da horta da prisão. Com capacidade para 85 pessoas, o The Clink está instalado no local há dois anos e abre as portas para o café da manhã e o almoço. No andar de cima há, ainda, uma área privada para 20 pessoas que pode ser reservada para reuniões, eventos e jantares.

Para o chef Sergio Arno, do La Vecchia Cucina, tal iniciativa não daria certo no Brasil. “Lá fora, as coisas funcionam porque existem regras e elas são aplicadas”, diz ele, que já visitou comunidades ensinando os segredos da gastronomia para jovens carentes e ex-drogados. “Nós somos preconceituosos. Algum cliente iria querer ser atendido por um assaltante ou assassino, no Brasil?” Para o inspetor italiano Iantosca, o Jantar dos Condenados é uma experiência positiva. “Passar uma noite jantando no cárcere serve para aproximar-se daqueles que erraram na vida, mas têm a intenção de retornar à sociedade sem cometer erros semelhantes.”

Milenna Gomes

Criadora do NSC, Milenna é jornalista de gastronomia e mestranda em história da alimentação na Universidade de Coimbra. Recifense vivendo em Portugal. Críticas e sugestões: contato@naoseicozinhar.com

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