Lugar de mulher é na cozinha: chefs do Recife falam sobre a experiência na profissão

Tradicionalmente, a gastronomia profissional é ambiente masculino. Por anos, apenas homens podiam chefiar as cozinhas dos grandes restaurantes – e até pouco tempo atrás, alguns chefs franceses mais xiitas não aceitavam meninas para trabalhar. A desculpa? O público feminino seria mais frágil, sensível, temperamental, inconstante. Não aguentaria o rojão pesadíssimo que é a cozinha de um restô. Às mulheres restava esquentar o bucho no fogão de casa, na lida doméstica (desde cedo as mães ensinam meninas a cozinhar, e não meninos), ou se dedicar a fazer doces. Mas o tempo passa, o mundo gira, o mundo é uma bola. Está aí nossa Helena Rizzo, melhor chef do mundo em 2014, como exemplo. A quantidade de homens no ramo é gritante, mas as mulheres têm e usam essa espaço. No Recife, a presença feminina nas cozinhas profissionais é, claramente, menor do que a masculina. As chefs que estão atuando, contudo, não ficam para trás quando o assunto é talento. Só perdem na quantidade mesmo. Muito se deve à dificuldade de abdicar da família, ter menos tempo para os filhos, marido e etc. É por isso, acredito, que no Recife existam mais chefs consultoras (que trabalham pontualmente em vários lugares diferentes) do que residentes (fixas a uma só casa). Para qualquer gênero, a rotina de restaurante é puxada, mas para a mulher é ainda mais difícil porque ela acumula o serviço da rua e o doméstico. É um leão por dia. Isso sem contar nos desaforos com que se deparam na cozinha profissional por serem mulher, talentosas e bonitas. Hoje, Dia Internacional da Mulher, mostro a vocês os pensamentos de algumas chefs bem legais daqui. Parabéns a todas nós!

miau arte

Miau Caldas, 35 anos

Formada pelo Senac, já passou pelas cozinhas do É, IT, Patisserie Chez Wiet, Pin Up, Bazza, Evoke (Porto de Galinhas), Kangaroo Burger, Sr. Chopp, Winner Sport Bar e muitos outros.

NSC – Você sente preconceito ou diferença no tratamento e oportunidades por ser mulher?
Miau – Todos os dias. E todos os dias tenho que provar que isso não existe. Homens têm suas qualidades e mulheres também. Não dá pra comparar pessoas. Cada um é um e se fizer bem o seu trabalho, não importa se é homem ou mulher.

NSC – Nesse ramo tão masculino, quais as vantagens de ser mulher?
Miau -Pergunta difícil, não vejo muitas vantagens não… Mas creio que tudo na vida precisa de delicadeza e um ar feminino. Sempre tem que ter uma mulher pra colocar ordem nas coisas, né?

NSC – Ser chef mulher no Recife é:
Miau – Difícil. Todos os dias travamos uma batalha para provar que somos capazes e podemos ocupar esse posto. Tem que ter muito jogo de cintura e persistência e seguir em frente.

cucina de carliLasanha do Cucina De’Carli: confira aqui visista que o blog fez ao restaurante.

Albania De’ Carli e Gênova De’ Carli, 60 e 56 anos, respectivamente

Irmãs, decendentes de italianos e proprietárias do Cucina De’ Carli – Restaurante e Empório de Massas, têm formação em culinária italiana no Italian Culinary Institute for Foreigners (ICIF). 

NSC – Quais as desvantagens de ser mulher na cozinha e como lidar?
Albania e Gênova – Em uma cultura machista como a nossa, em nenhuma profissão é fácil ser mulher. Na nossa experiência as maiores dificuldades estão ligadas a chefia das equipes de apoio.

NSC – Vocês sentem preconceito ou diferença no tratamento e oportunidades por ser mulher?
Albania e Gênova – Sim, sempre. Em qualquer atividade há diferenças profundas no tratamento e nas oportunidades para as mulheres. Somos quase sempre menos valorizadas e frequentemente também assumimos o papel de menos valia.

NSC – Nesse ramo tão masculino, quais as vantagens de ser mulher?
De forma geral, as principais vantagens da mulher na cozinha é que elas são muito cuidadosas com a saúde; muito atentas à higiene; muito criativas, inspiradas e adoram inovar. As mulheres são sensíveis, capazes de transformar um “simples prato de sopa” em algo que revigora, alegra e é amoroso.

taci teti

Taciana Teti, 33 anos

Formada em gastronomia e administração de alimentos e bebidas pela Universidad San Francisco de Quito/Ecuador,  já passou, entre outros, pelo Nez Bistrô, Sansa – Sanduiches e Saladas, Cordel Botequim, Kangaroo Burger, Haus Lajetop Beergarden. É professora de gastronomia da Faculdade Boa Viagem.

NSC – Você sente preconceito ou diferença no tratamento e oportunidades por ser mulher? Vê vantagens ou desvantagens em ser do sexo feminino?
Taci – Não enxergo muito desta forma entre vantagens e desvantagens. Não me lembro o dia que perdi ou ganhei uma oportunidade por ser mulher. A grande diferença está em como lidamos dentro da cozinha. A postura, educação, poder de liderança. Como não acho que precisamos de grito ou força pra liderar, normalmente consegui lidar muito bem com isso. Inclusive, acho que existe preconceito maior por ter escolhido a via da formação acadêmica antes da experiência profissional. A maioria da brigada de cozinha dos restaurantes é formada por pessoas que entraram como lavadores de prato e por esforço próprio chegaram a ser cozinheiros/chefs. Então, entenderem que alguém estudou, se formou, e chegou mais rápido no mesmo nível ou maior que eles acaba causando um atrito. Mas nada que a humildade, boa conversa e respeito não resolvam. As desvantagens de ser mulher, ou melhor, de ser mãe, acabam caindo no filho. Ele sim, sente minha ausência e é sempre um misto de sentimentos de chateação pela ausência e orgulho pelo sucesso na profissão que eu escolhi. Acho que todas as minhas dores e sentimento de desvantagem que já senti nesses 12 anos de profissão foi com ele. Obviamente por criar só, isso acaba tendo um peso maior.

çava2014.5Frango cozido em vinho do Porto do Ça Va Bistrô. Confira aqui visista que o blog fez ao restaurante.

Carla Chakrian, 33 anos

Formada pelo Senac, trabalhou nas cozinhas do Hotel Recife Palace, Summerville Resort, La Douanne Bistrot e hoje é chef residente do Ça Va Bistrô.

NSC – Como você se enxerga na cozinha de casa e na do trabalho? Qual a diferença?
Carla – Em casa não existe a responsabilidade e a preocupação do trabalho, a cozinha passa a ser mais um hobby, sem a pressão do dia a dia, dando espaço até para uma baguncinha. No trabalho, tem que ser metódica, preocupação extrema com limpeza, com custos, com a organização e o estoque dos alimentos etc.

NSC – Ser chef mulher no Recife é:
Carla – Difícil pela quantidade pequena de profissionais mulheres que trabalham dentro da cozinha o tempo todo, mas com amor ao que se faz, bom conhecimento, técnica e acima de tudo humildade, pode-se conquistar sim um espaço no mundo dos homens.

NSC – Em casa você continua desempenhando o clássico papel da mulher na cozinha ou recebe ajuda do marido?
Carla – Meu marido mal sabe fritar um ovo. Na verdade, recebo mais ajuda do meu filho de 4 anos. Mas ele me ajuda na concepção de pratos, nomes, sabores e temas.

Milenna Gomes

Criadora do NSC, Milenna é jornalista de gastronomia e mestranda em história da alimentação na Universidade de Coimbra. Recifense vivendo em Portugal. Críticas e sugestões: contato@naoseicozinhar.com

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