Intercâmbio aos 25 anos: vale a pena?

A vontade de viajar é um bichinho que mora dentro de mim há tanto tempo que nem lembro quando ele nasceu. Só sentia aquele comichão quando ele se mexia entre meu peito e minha barriga toda vez que eu imaginava como seria me jogar no mundo, conhecer gente, andar por caminhos tão legais e diferentes da minha realidade diária. Deitada no meu beliche, no quarto pequeno que dividia com meu irmão antes de me mudar da casa dos meus pais, sonhei muito com a imensidão dessa terra, com um intercâmbio. Nossa, muito… O plano era passar um ano fora, aprendendo inglês. Moraria na casa de uma família, dessas tipo comercial de margarina, nos Estados Unidos. Comeria panquecas no café da manhã, iria para festas com ponche e faria viagens pelo entorno com meus amigos gringos, em um carro conversível, ouvindo Road Trippin’, de Red Hot Chili Peppers, enquanto o vento bateria no meu rosto e bagunçaria meus cabelos.  ♪ “Let’s go get lost, let’s go get lost“. ♪

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Como era de se esperar, o universo me mostrou que a vida não é um clipe da MTV. Nunca rolou dinheiro suficiente na adolescência pra fazer o que eu queria. E no início da juventude eu precisei ralar muito para custear a universidade – não dava para viajar e pagar a mensalidade ao mesmo tempo. Com uns 18 anos, cheguei a frequentar reuniões de au pair (meninas que moram em casas americanas e cuidam dos filhos dessa família), mas a conjuntura emocional naquela época não era favorável a esse planejamento. Com 23, já com emprego e uma certa estabilidade, eu tinha dinheiro e não tinha tempo. Protelei. Aí eu casei! uau. E passei a ter várias prioridades financeiras que nem adulto. UAU. E logo mais eu devo ter filhos. U-A-U.

E puf! Meu sonho foi ficando de lado.

Olha, eu não posso reclamar. Nesses curtos quase 26 anos, viajei bastante, pra fora até, com Felipe. É uma delícia estar com ele por aí. Mas eu nunca tive a chance de estar só comigo, eu e eu, num lugar em que ninguém me conhece, fora da minha zona de conforto, falando outra língua, tendo que ler mapa/placas – meu Deus, como eu sou desorientada -, decidindo para onde quero ir sem a opinião e as necessidades de ninguém. Uma liberdade que eu nunca havia experimentado e com a qual fantasiei infinitas horas no chuveiro, ouvindo Californication à exaustãoquando tinha 14 anos. Doze anos e algumas sessões de terapia depois, obrigada a tomar grandes decisões para os próximos capítulos da minha novela pessoal (que talvez não me inclua como protagonista), me vi diante dessa questão novamente. “E esse intercâmbio, minha fia, sai ou não sai? E se não sair, vai saber lidar com isso mais pra frente?”.

Café, meu melhor amigo no frio

Café, meu melhor amigo no frio

Aí eu fui. Mesmo sabendo que seria mais fácil e confortável viajar com meu marido para outro destino. Fui. Estudar. No meu primeiro mês de férias depois de três anos trabalhando direto, sozinha, dividindo quarto com estudante, com o dólar a R$4,20, torrando toda minha suada poupança e mais um pouco, com medo do frio, de chegar lá e querer voltar, do frio, de não saber falar inglês o suficiente, do frio, de me perder e ser assassinada por um serial killer. Eu já falei do frio? Odeio frio. Fui. E não foi como imaginei que seria, há anos atrás. Com 17 a gente fantasia umas besteiras, viu? Mas foi sensacional. E sabe por quê? Porque com 25 eu tenho a maturidade que não tinha antes – e uma identidade também (com menos de 21 anos você não entra em bares nos States e nem compra bebida. RÁ!). E com 30, 40, 50 deve ser ainda melhor.

Flor amarela, vinho branco e céu azul

Flor amarela, vinho branco e céu azul

Se vale a pena? Vale muito. Mesmo com pouco tempo (passei três semanas) consegui melhorar minha fluência no inglês e descobri que sei mais da língua do que esperava (obrigada, Friends). As aulas são muito importantes para aprender/revisar gramática (com tempo curto, é melhor que você já tenha alguma noção do idioma), mas circular, pedir informação, comprar comida, andar de metrô é o que vai te fazer aprender. E a escolha é sua: quer estudar loucamente para não perder um segundo de oportunidades? Sem problemas. Quer curtir a cidade e fazer um curso mais leve? Tudo bem também. Você vai se sentir velho, meu bem. Vai por mim. E olha que eu tenho o espírito xófem. Dependendo da escola, seus colegas de classe serão, boa parte, adolescentes. Existem cursos por idade também, se você não topar a “energia” dessas pessoinhas. O exercício diário de me relacionar com amigos da idade do meu irmão e de vários países diferentes, no entanto, me fez um bem danado. A curto prazo, é até estimulante. E como é bom perceber que com maturidade você está aproveitando essa oportunidade com mais foco e sabedoria do que eles.

Com 25 e ficando apenas um mês, você pode ter o luxo de não morar em casa de família ou residência estudantil e ficar em um hotel, alugar um quarto no Airbnb. É bem mais caro, mas o conforto é incomparável. Como o dólar estava nas alturas, morei com mais 16 estudantes, compartilhando quarto com uma moça árabe de 19 anos. Não foi o ideal, mas foi o que eu conseguia pagar. E foi massa! Também não fui para Nova Iorque por causa de grana, era o meu primeiro destino favorito. Contudo, San Francisco, na Califórnia, a segunda opção da minha lista, me fez tão feliz que se me dessem uma passagem sem rumo para o EUA eu iria pra lá novamente sem nem pensar.

port of san francisco

Se você quer fazer essa viagem, vai e faz. A grana tá curta? Viaja pra onde você conseguir pagar, pesquisa escolas de idioma locais, mais baratas que as internacionais (foi o que fiz). Faça um planejamento, priorize, junte dinheiro (eu passei três anos fazendo isso e até abri mão de uma festa de casamento para poder economizar) e depois gaste TUDO sem pena. É um crescimento para o currículo, é um crescimento pra alma. Faça um intercâmbio que se ajuste a sua realidade – uma amiga pediu demissão de um trabalho estável e foi morar seis meses na Irlanda, trabalhando pesado para conseguir pagar as contas -, não se sabote e pense em você. Investimento pessoal não é egoísmo, é amor próprio. E que recompensa linda vem depois!

Obrigada Felipe, marido e incentivador das minhas empreitadas. <3

Nas próximas semanas, vou escrever sobre San Francisco, o curso que fiz, onde morei e a experiências de ser intercambista aos 25.

Milenna Gomes

Criadora do NSC, Milenna é jornalista de gastronomia e mestranda em história da alimentação na Universidade de Coimbra. Recifense vivendo em Portugal. Críticas e sugestões: contato@naoseicozinhar.com

4 Comentários

  • Responder abril 2, 2016

    Beatriz Lacerda

    – uma amiga pediu demissão de um trabalho estável e foi morar seis meses na Irlanda, trabalhando pesado para conseguir pagar as contas -, não se sabote e pense em você. ❤️❤️❤️❤️❤️

  • […] Intercâmbio aos 25 anos: vale a pena? […]

  • Responder abril 13, 2016

    Luísa

    Que massa, Milenna! To pensando Seriamente em fazer isso… tenho 25 anos 😀 Beijo!

  • Responder outubro 24, 2017

    Vanessa Mendes

    Menina, adorei a postagem! Farei um intercâmbio de 2 semanas em Dublin, e mesmo que não seja as tão sonhadas 4 semanas de férias do trabalho aproveitando a Irlanda, vou fazer valer a pena 🙏
    Aos 23 continuo sonhando como se tivesse 15… Rs

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