Feliz agenda nova

Preenchi a página de dados pessoais, ainda vazia e sem identidade, da minha agendinha nova (no meu ritual particular, e favorito, de passagem para o ano novo). Meu nome continua o mesmo. O tipo sanguíneo também. Só que no endereço, Porto, Portugal.

Eita. Quanta coisa muda de um dezembro para o outro.

Ontem mesmo eu estava escrevendo “Santo Amaro, Recife”. Ontem mesmo eu saí da livraria, no intervalo do trabalho, toda entusiasmada por ter encontrado uma agenda nova. Essa representação do porvir, em formato de papel encadernado, que sempre provoca em mim uma genuína sensação de esperança, de estar segurando o ano novo com as próprias mãos. Agendas fazem isso comigo, me estimulam a olhar pra frente, criar boas expectativas, enxergar o futuro, mas sem esquecer do que é preciso por em prática hoje, de viver um dia de cada vez.

Porque tá lá anotado, né? E escrever, pra mim, tem o poder de tornar real. É materializar, em tinta de caneta numa página limpa, algo que segundos antes só existia dentro de você. E depois de externar se torna palpável, legível. Passa a fazer parte do mundo. Vira plano, decisão. Vira futuro com um parênteses do lado para dar, com gosto, um grande “ok”.

Olhar minha agenda velha toda preenchidinha, surrada, rabiscada, cheia de anotações, projetos iniciados, concluídos, e até deixados para depois, me faz ter o maior e melhor sentimento de dever cumprido. Ali estão noites sem dormir, dias de sol na praia, prazos alcançados (outros não, e tá tudo bem), viagens, contas pagas, restaurantes visitados, pessoas perenes, que são um calendário inteiro, e pessoas breves, como um feriado qualquer. A terapia escrita em caixa alta pra me obrigar a ir e que tanto me ajudou esse ano, o sofrido pilates às sete da manhã, o dia em que eu resgatei um gato caolho que me fez gostar de gatos, as primeiras férias na carteira de trabalho, um intercâmbio tão sonhado, idas ao médico, tantos posts para o blog que eu não escrevi, um novo CEP, um novo continente. Muitas datas para lembrar, algumas para serem esquecidas e, outras, ressignificadas no que vem. Porque estão em branco na minha agenda nova. Não é massa?! A cada virada de ano, esse amontoado de papel me faz perceber que existem nas minhas mãos centenas de dias inteiros com incontáveis possibilidades de ser feliz. De tentar acertar dessa vez ou de fazer tudo igual novamente.

Eu não tinha ideia da quantidade de coisas que seriam marcadas nas páginas da minha agenda ao logo de 2016. E quem é que sabe, né? Doze meses depois, no entanto, eu a folheio e, poxa, cheguei aqui. Teve riso, teve choro, chuva, sol, dor, amor. Foi pesadíssimo, mas foi leve também. E chegamos aqui. A de 2017 está limpinha, pronta pra ser escrita. Por isso, eu só posso desejar um imenso feliz agenda nova pra vocês.

Milenna Gomes

Criadora do NSC, Milenna é jornalista de gastronomia e mestranda em história da alimentação na Universidade de Coimbra. Recifense vivendo em Portugal. Críticas e sugestões: contato@naoseicozinhar.com

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