Eu não gosto do Natal

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No alto de meus 23 anos eu tive uma certeza: não gosto do Natal. Já desconfiava. Uma época em que as comidas levam passas, abacaxi e frutas cristalizadas em excesso não pode ser boa. E esse tal de espírito natalino? Só me acometeu quando muito pequena, tempo em que ainda havia imaginação, festas de família, luzes, árvore com neve falsa e bolinho de chuva. Era bom, mas passou. Desde que meus primos e eu crescemos, esse período deixou de ser divertido. Passou a ser melancólico, triste. Acho que é porque me lembra o ano acabando e eu gosto do ano acontecendo, de movimento, de vida. Não gosto de finais porque eles são muito definitivos às vezes. Mas entendo a importância das coisas se encerrarem, dos ciclos fecharem, de algo acabar. Entendo. Não gosto, mas entendo. Dezembro de 2013 calhou de ser, ainda, o mês mais triste de todos. Cheio de pontos finais. Anunciados e inesperados.

Minha avó Maria foi um deles.

A mulher que gerou minha mãe, que me gerou. Que me deu amor sem pedir nada em troca, que me chamava de Lena, de quem eu puxei os olhinhos e a teimosia, dona da voz afinada e do cabelo cinza mais liso e bonito do mundo. Há 11 dias ela não está mais aqui e eu não sei para onde ela foi. É angustiante. Nem está doendo, sabe? Viver 86 anos não é para todo mundo. É só saudade, essa filha da puta, que incomoda demais. E dúvida. Muitas dúvidas. Elas também aporrinham o juízo, abalam as crenças, dão nó na garganta. Mas o pior são as certezas. Certeza de que um dia, por mais que você ame, ame e ame, o fim chega. Certeza de que as coisas acabam, que tudo tem um final. Outras três pessoas não tão próximas, mas ligadas a mim de alguma forma, também partiram dessa, espero, para melhor. E ainda teve, terminando de lascar tudo, Reginaldo Rossi, que era imortal. “E pra matar a tristeza só mesa de bar.” Se pelo menos eu bebesse! Não dá nem pra comer. Passas, abacaxi e frutas cristalizadas demais.

Tem meus pais, também, que não estão mais juntos.

Há tempos ensaiavam cortar os laços. Todos já esperavam (crônica de uma separação anunciada). Em dezembro, por fim, depois de quase trinta anos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, deixaram de dividir o mesmo teto. Nunca se deram tão bem quanto agora. Nunca sofreram tanto. Eu fico de longe sofrendo pelos dois. Os encontros e as ligações também são dolorosos… Compartilho não uma, mas duas tristezas, firme e forte, cultivando a couraça, cuidando da armadura que protege o coração. É lapada até umas horas, tem que tomar conta. Como eu disse, não gosto de finais porque eles são muito definitivos. Entendo, entretanto, a importância das coisas se encerrarem. É preciso um fim para haver início. Ter a oportunidade de recomeçar, gente, não é privilégio de muitos. Painho e mainha estão tendo essa chance. Vovó acreditava no céu, deve estar cantando por lá junto com Rossi. Eu? Eu tenho 2014 e muita fé, em mim e em Deus. E que 2013 termine sem ele precisar levar mais ninguém.

Milenna Gomes

Criadora do NSC, Milenna é jornalista de gastronomia e mestranda em história da alimentação na Universidade de Coimbra. Recifense vivendo em Portugal. Críticas e sugestões: contato@naoseicozinhar.com

3 Comentários

  • Responder dezembro 24, 2013

    Eliza

    Linda! Todas as minhas melhores energias. :**

  • Responder dezembro 24, 2013

    Amanda

    Te amo e compartilho da mesma dor.

  • Responder dezembro 24, 2013

    Fernanda Nery

    Amiga, tenho nem o que dizer..

    Tô chocada.

    Mas olha, te amo tá?
    Um beijo enorme pra vc e pra o boy!

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