Crônica – Histórias das refeições de antigamente

Por Allan Nascimento

mainha fez pirão hoje. não sei se é costume só da região (interior de Pernambuco), mas por aqui, antigamente, pirão era servido às mulheres em resguardo, pra fortalecer (outro hábito maravilhoso é servir licor a quem vai visitar a mãe e o bebê).

e aí a comida vai puxando as histórias das refeições de antigamente. em 30 minutos lembramos dos anos que comemos tapioca só com manteiga, pq não imaginávamos como ficaria bom se o recheio fosse outra coisa – sério, eu já era escolado quando comi tapioca com queijo pela primeira vez.

nilda lembra de quando não se tinha geladeira nas casas e a carne de porco ficava num varal, pendurada, rígida de sal. cida lembra que em época de manga a fruta era acompanhamento de todos os pratos da casa dela, até do feijão com farinha.

mainha comenta que, apesar de ter muito milho lá no sítio, minha vó o utilizava exclusivamente para a pamonha, sem exceções (nada de milho cozido ou assado pros oito filhos), e ainda diz que água de cacimba era uma delícia.

para a família de uma, o arroz era caro e era comida de domingo; outra, não tinha nem uma gordurinha para colocar no prato; a terceira comia pão às segundas, dia de feira em Tuparetama, quando os pais iam à “rua”.

mas a parte que hoje soa cômica, desse mundo em que havia fartura da escassez e em que existia um universo ainda a ser descoberto, foi a que encerrou o almoço.

nestas bandas, extrato de tomate não era algo corriqueiro em muitas casas, e talvez nas prateleiras das mercearias, na década de 1980.

estamos falando diretamente do sertão, provavelmente numa fase em que o acesso à capital era feito por uma estrada de terra. nilda conta que a mãe dela e os irmãos viram na venda uns potes lindos, de vidro e que pareciam xícaras, com um “doce de goiaba” bem bonito, consistente, vermelhão.

comprou dois para cada filho e sentou todos eles na sala de casa, depois de almoçados, para degustar a novidade – que de tão azeda virou lavagem e foi servida aos porcos.

Milenna Gomes

Criadora do NSC, Milenna é jornalista de gastronomia e mestranda em história da alimentação na Universidade de Coimbra. Recifense vivendo em Portugal. Críticas e sugestões: contato@naoseicozinhar.com

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