Comendo com os olhos | Filme – Soul Kitchen

No comendo com os olhos eu vou dar dicas de filmes e livros que tenham gastronomia no meio. Que acham? Como outro dia eu precisei quase torrar o cérebro fazendo uma resenha crítica de Soul Kitchen para uma cadeira da facul, ele é o escolhido e estreia a coluna. 🙂 Peguem leve comigo. Nunca tinha visto nenhum filme do diretor e não sou especialista em cinema. Ainda não saiu a nota, mas, para mim, o esforço valeu 11,5! haha Eu conto algumas partes importantes da história, então se você não gosta de spoilers não se jogue.

Mais do que filme sobre música e gastronomia, Soul Kitchen é reverência de Fatih Akin à amizade e interações familiares

Como título, Soul Kitchen é revelador. “É soul de música, sabe?”,  esclarece o protagonista Zinos (Adam Bousdoukos, também roteirista), nas primeiras passagens do filme. Durante as subsequentes, o diretor alemão Fatih Akin deixa claro que a escolha do nome não foi por a caso. A pegada musical é marcante ao longo da obra, proporcionando momentos deliciosos aos apreciadores do casamento som-imagem. Funk, soul, dance, música latina, grega e outras referências estão presentes na trilha sonora, que acompanha, engrandece e até se sobrepõe à história em certas ocasiões.

Menos saborosa, a comida também está lá, na cozinha velha e suja do Soul Kitchen, restaurante comandado pelo proprietário e mestre-cuca de improviso – e qualidade duvidosa-, Zinos. A culinária do estabelecimento é feia, gordurosa e sem higiene alguma, mas agrada uma clientela fiel. Até a chegada de um chef sofisticado que sofre na tentativa de converter o jovem à alta gastronomia e fazer dele um cozinheiro minimamente decente. O processo rende situações engraçadas e bem absurdas, como a festa em que uma fiscal da prefeitura, possuída pelos efeitos de uma sobremesa alucinógena/afrodisíaca, faz sexo em público. Além, é claro, de belas sequências de alimentos sendo manuseados e preparação de pratos – quesito fundamental em realizações cinematográficas cujo tema é gastrô.

No entanto, diferente dos filmes comuns desse segmento, na criação de Akin a comida não tem papel transformador, como em Julie e Julia (2009) e Como Água Para Chocolate (1992). Ela é coadjuvante, auxiliando o desenrolar do que, de fato, ele quis expressar. Conhecido por realizar longas artísticos e engajados, o diretor, na primeira comédia da carreira, buscou um caminho alternativo. Não que a obra seja desprovida de estética ou conteúdo, ela só é mais pessoal. Gravada em Hamburgo, na Alemanha, terra natal do autor, Soul Kitchen (SK) teve a colaboração da esposa, irmão e amigos dele, além de ter sido inspirada em pessoas próximas e instantes de sua vida. Essa decisão é refletida no produto final, no qual o particular de Fatih é desconstruído, moldado e apresentado ao público por meio das relações entre os personagens – sobretudo as de amizade.

Uma das mais fortes é a de Zinos com o irmão, vigarista atrapalhado cujo vício no jogo o faz perder a posse do restaurante lhe confiado, não facilmente, pelo protagonista. Ainda assim, os dois permanecem juntos, dando suporte um ao outro, revendo conceitos de confiança e laços familiares. Outra é a do personagem principal com a noiva, que vai seguir carreira como correspondente na China. Por amor, ele larga tudo, inclusive o SK, único bem, para ir atrás dela do outro lado do mundo. Depois de vários atropelos na investida (como descobrir um novo namorado da moça), os dois acabam amigos e é ela quem o ajuda a recuperar a propriedade. Há, mesmo que distante, a interação de Zinos e o senhor rabugento a quem aluga um espaço para morar. Sisudo, esse é folgado, come de graça e não paga o aluguel, mas fica ao lado do vizinho azarado em todos os tropeços. Ainda que pareça sentimental, o roteiro passa longe de ser brega ou piegas como as comédias/comédias românticas americanas, embora peque com alguns exageros do gênero. No geral, o filme não faz pensar, no entanto é agradável, leve e proporciona boas risadas, objetivo maior do realizador.

Em um novo ponto de vista, o nome talvez diga outra coisa. Soul Kitchen é cozinha com alma, em tradução livre. Aquela feita com amor, que vem de dentro e dá origem a preparações cheias de significado: as confort foods, comida afetiva, com gosto caseiro. Por ser um projeto tão interior, Fatih Akin  pode ter tentado fazer o mesmo, mas usando câmera no lugar das panelas, boas interpretações como ingredientes e a sala de cinema substituindo a do jantar.

……………

Um beijo se você leu até o final! kkk Falando que nem gente, agora. Eu gargalhei do começo até o fim vendo esse filme. Chorei de rir algumas vezes porque eu sou abestalhada pra essas coisas. Ele não é o mais gastronômico do mundo, mas vale a pena. Assiste e depois conta.

Milenna Gomes

Criadora do NSC, Milenna é jornalista de gastronomia e mestranda em história da alimentação na Universidade de Coimbra. Recifense vivendo em Portugal. Críticas e sugestões: contato@naoseicozinhar.com

3 Comentários

  • Responder maio 27, 2011

    Carol

    Eu li até o final e curti, digo logo!!!! Por mim tu tia 3 fáááácil! 😛

  • Milenna Gomes
    Responder maio 27, 2011

    milenna__

    Deus te ouça, Carol! kkkkkkkkkkkkk
    (A nota máxima é 3 pra quem não sabe)

  • Responder maio 27, 2011

    Lorena

    oba! blog de volta! 😉

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