A terra da acerola

Elvis construiu Graceland, Michael Jackson plagiou Peter Pan e levantou Nerverland e os pernambucanos, sempre originais, criaram a Aceroland. Nesse São João, como aconteceu, eu acho, em 18 dos 22 anos da minha vida, fui para a Zona da Mata Norte de Pernambuco, mais especificamente para Carpina, terra de mainha. Desde que eu me entendo por gente lembro de ir para os lados de lá. Nem é tão longe da capital (uns 50km e 30min de viagem de carro, sem trânsito), mas quando eu era pequena achava que tava indo para Júpter. No caminho, uma parada era obrigatória, pedida, precisada: Acerolândia, às margens da BR-408, em Paudalho, cidade vizinha a Carpina. O pedido era – e continuou sendo na visita desse final de semana – o mesmo: um copo de suco de acerola e uma coxinha de frango com massa de batata. O gosto, o cheiro, tudo permaneceu igual a quando eu era pequenininha. Uma coisa linda, minha gente. E sentar lá, naquelas mesas de troncos de árvore, saboreando coisas que me marcaram tanto na infância, foi uma cutucada feroz em algumas das minhas lembranças mais bonitas. Eu amo a Acerolândia e tenho certeza que quem já passou por lá ama muito também.

CLÁSSICO Coxinha de batata e suco de acerola combinam mais que queijo e goiabada

Tá certo que quando eu era pequena não queria o suco nem a pau, né? Sempre pedia uma Coca, mas painho e mainha empurravam a acerola goeala abaixo. Hoje eu adoro e é um dos poucos que eu tomo (não como fruta e nem tomo muito suco. Não me julgue, não me imite). Além da bebida, que já é tradicional, na Acerolândia ainda vende sorvete de acerola, picolé de acerola e mel e a própria fruta colhida na plantação enoooorme que fica no sítio 2km a dentro da parte comercial. Tive a sorte de um dia, quando ainda era repórter do Sabor da Gente em 2011, ir lá fazer uma matéria. Fui na plantação, vi o primeiro pé de acerola cultivado e roubei uma folhinha dele para me dar sorte. Não me pergunte onde ela está. Também conversei com a dona do lugar e passei a enxergar tudo com outros olhos. A “terra da acerola” surgiu nos anos 90 e foi uma bafafá. A fruta, que tem várias propriedades medicinais (curar a gripe pra mim é a mais importante), passou s ser vendida em grande quantidade e rendeu muito lucro para a família que administrava a plantação e a loja. Mas a era de ouro acabou. O bom é que eles nunca saíram de lá e mantiveram a Acerolândia para alegria de todos e felicidade geral da nação.

Vale muito vistar o lugar, minha gente. É arborizado, com móveis antigos e coisas lindas para se ver. A melhor parada para quem está viajando para as bandas de lá. As crianças ficam loucas. Tem casa de boneca, casa da árvore (no chão) e brinquedos, tudo feito à mão. Na Acerolândia também são criados preás fofinhos (todos morrem e viram churrasco, mas isso você não vai dizer pra os pirraias, nhéé?) e peixes em dois tanques que ficam bem lá no meio. Dá para ficar jogando migalhas e sendo feliz. Gostou? Então ACELERA, meu amor. Foi a dona quem me disse: com essa história de Copa do Mundo e duplicação de BR para escoar melhor o trânsito, a parte da frente da Acerolândia vai ser destruída, já que ela fica bem na beirinha da estrada, e junto leva um pedaço do meu coração. :/ Mas Acerolândia é AMOR e ligação afetiva nunca sai do coração – nem chacoalhada por um trator.

CURIOSIDADE

Nos tempos do boom da acerola na década de 90, uma empresa japonesa passou a importar a fruta e fazer de um tudo com ela, remédio, cosmético e coisas que eu não consegui identificar porque eu não sei ler japonês. Eu sei que tem até shampoo. As embalagens dos produtos estão lá, num memorial.

Milenna Gomes

Criadora do NSC, Milenna é jornalista de gastronomia e mestranda em história da alimentação na Universidade de Coimbra. Recifense vivendo em Portugal. Críticas e sugestões: contato@naoseicozinhar.com

10 Comentários

  • Responder junho 25, 2012

    Belarmino

    Que delícia de textos e fotos! Deu vontade de ir bater na Acerolândia… Acho que já passei lá pela frente, mas nunca parei. Motivo a mais eu tenho agora. BJoo

  • Responder junho 25, 2012

    Michela

    Oww Mayra, que saudade desse lugar maravilhoso chamado Acerolândia, faz muito tempo que não vou lá, aliás, faz muito tempo que não vou pra esses lados, mas foi muito bom rever o lugar mesmo sendo através de fotos e matar a saudade com esse texto maravilhoso que você escreveu e que me transportou diretinho pra lá, não esquecendo nem mesmo das mesas de troncos de árvores. Adorei!

  • Responder junho 25, 2012

    Sarah Jéssica Lima

    Tenho ótimas lembranças da Acerolândia tb! 🙂 que post feliz!

  • Responder junho 26, 2012

    Bruno Brum Paiva

    Acerola, um dos primeiros sucos exóticos que tomei na terra pernambucana. Em Porto Alegre só se toma laranja e abacaxi – e olha lá. De uns tempos pra cá, a polpa popularizou os sabores distintos.
    Tomei acerola pela última vez quando almocei no Restaurante Mourisco, em Olinda. Meses e meses me separam desse presente.
    Hasta la vista!
    Bruno

  • Responder junho 26, 2012

    Beatriz Lacerda

    Eu adorei esse post! Amei, como sempre ótimas fotos e boas histórias do lugar. O detalhe é que sempre passo na frente, mas agora vou ver com outros olhos!

  • Responder junho 26, 2012

    Aline Souza

    Eu quero ver de perto essa aí. <3
    Lindo, Mi!

    Bjs

  • Responder junho 30, 2012

    Rodolfo Nícolas

    Suco de acerola é o melhor!

  • Responder julho 20, 2012

    Nathalia

    mulher, atualiza esse blog!

  • Responder agosto 14, 2012

    Nadia Lacerda

    Felicidade de ver a Acerolandia descrita com tanto carinho. Obrigada pela visita e desde ja convidamos para em breve conhecer a nova loja que esta sendo construida ao lado da atual para que possamos continuarmos oferecendo um pouso agradavel para todos nossos cliente e amigos.

  • Responder novembro 5, 2012

    Nadia C Lacerda

    Em dezembro reserve um dia para conhecer a nova loja da ACEROLÃNDIA. Aguardo com carinho sua visita.

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