4 cafeterias antigas e incríveis para conhecer na Europa

Café boisson, café institution é o título original em francês de um artigo de Jacques Barrau publicado em 1989. Traduzido, sem biquinho e com muito menos charme, significa “Café bebida, café instituição”. Ou seja, mais do que um líquido preto, potente e estimulante, a palavra café significa também espaços de sociabilidade erguidos em torno do beber. Cafés viram a intelectualidade europeia aflorar, revoluções serem traçadas, clássicos literários escritos, amores começarem e terminarem, especialmente entre os séculos XV e XVII, quando a Europa conheceu também o chocolate e o chá, consumidos nesses mesmos ambientes. Desse período, algumas cafeterias, joias da arquitetura, ainda resistem lindas no Velho Continente. Elas não têm relevância gastronômica, com métodos diferentes de extrair a bebida e inovações, mas possuem um valor histórico incalculável. Pelos passeios que fiz por aí, tive a chance de conhecer algumas.

Le Café Procope – Paris

De 1686, o Procope é o café mais antigo do mundo em atividade. Hoje, funciona como restaurante com menu do dia (o menu du jour) a € 45. É elegante, à noite precisa fazer reserva e os garçons te medem da cabeça aos pés. Não dá pra sentar, só pedir um café e uma sobremesa – como eu, na cara de pau, fiz – sem que o atendimento fique de cara feia. Mas, não tem nariz torto no mundo que me impediria de sentar no mesmo ambiente em que já estiveram Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Humboldt, Rousseau, Diderot, Verlaine, onde Robespierre, Danton e Marat desenharam a Revolução Francesa. Eu sou besta e fico emocionada pensando nesse povo escrevendo um texto, ou lista de quem perderia a cabeça, entre um cafezinho e outro. Pedi o profiterole famosão de lá, a coisa mais gostosa que comi em Paris, e um espresso. Deu tudo uns € 18.

Onde: 13 rue de l’Ancienne Comédie, 6th arrondissement.
Fica perto: dos Jardins de Luxemburgo.
Dica: o Procope tem duas entradas, a do bequinho, pela lateral, vale ser vista.

Caffè Florian – Veneza

Quando entrei no Florian eu comecei a lacrimejar. Chegou a escorrer uma lágrima. Okay, eu tava numa fase emotiva, muito provavelmente de TPM, e ainda não tinha superado a quantidade de beleza vista nas horas anteriores em Veneza. E o pôr do sol na Piazza San Marco, junto com aquele casal bapho fazendo  um ensaio de casamento, definitivamente ajudou. Tava uma cor linda, o vestido dela era incrível. Mas, esse café é de emocionar mesmo. De 1720, o mais antigo em funcionamento da Itália, um dois mais velhos do mundo. Benjamin Constant, Lord Byron, Thomas Moore, Charles Dickens, Alexandre Dumas Pai, Ernest Hemingway já relaxaram por ali. Eu entrei, olhei, filmei e fui embora porque o que tem de lindo tem de caro (€ 15 num café, passei).

Onde: Piazza San Marco, 57.
Fica perto: da Piazza San Marco, tem erro não.
Dica: vai no entardecer e fica nas cadeirinhas de fora. Um absurdo.

Cafe Foyer | Palau de la Música Catalana – Barcelona

O Palau de la Música Catalana (1908) é uma casa de shows e um espetáculo da arquitetura modernista da Espanha. Foi construído por Lluís Domènech i Montaner para provar que nem só de Gaudí vive Barcelona. A sala de concertos de lá é Patrimônio Mundial pela UNESCO. Pra entrar tem que pagar, por isso muito gente  se limita a olhar a parte de fora. Mas, o café Foyer del Palau, que tem entrada pela lateral perto da bilheteria, compartilha da mesma estrutura e você só gasta com o cafezinho. A dica eu peguei com Andreia Rocha, que vive na cidade e mantém o Clico o Mundo. Deus lhe pague com muitos anos nessa terra maravilhosa! Além de café, o lugar serve tapas, no entanto a atração principal mesmo é o prédio. Pede alguma coisa, senta e fica observando. Passeio delícia pra se fazer BCN.

Onde: C/ Palau de la Música, 4-6.
Fica perto: a duas quadras da Praça da Catalunha.
Dica: não peça o café com marshmallow porque é ruim demais.

Café Majestic – Porto

As cafeterias em Portugal só foram bombar mesmo duzentos anos depois do boom de Paris, nos anos de 1920, quando o café brasileiro, depois da imigração italiana, estava chegando aos montes por lá. Grandes casas foram erguidas e o Majestic é uma delas, de 1921. Era do ladinho da minha casa no Porto, na rua de compras mais famosa de lá, a Santa Catarina. Uma coisa curiosa é que essa cafeteria entrou em decadência e virou, como conhecemos aqui, um belo e tradicional pega-bêbo. Em 1992 foi reformado e hoje é uma das atrações mais visitadas do Porto. Diz a lenda que J.K. Rowling – quando morou na cidade – escreveu as primeiras linhas de Harry Potter num guardanapo de lá. Peça a rabanada para um, é suficiente para dois. Foi o único lugar do Porto onde encontrei rabanada sendo vendida e a bicha é boa: feita com calda de ovos, vinho do Porto e servida com frutas secas.

Onde: Rua Santa Catarina, 112.
Fica perto: da Fnac.
Dica: faça compras na saída, tem muitas lojinhas ótimas.

Milenna Gomes

Criadora do NSC, Milenna é jornalista de gastronomia e mestranda em história da alimentação na Universidade de Coimbra. Recifense vivendo em Portugal. Críticas e sugestões: contato@naoseicozinhar.com

1 Comentário

  • Responder novembro 8, 2017

    nessa

    post novo, ebaa! manda mais!!!

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