10 doces portugueses para além dos Pastéis de Belém

Antes de tudo, sim. Eu comi todos os doces que estão nesse post.
Esclarecido isso, sigamos, pois.

Para mim, o pastel de nata é uma das contribuições mais maravilhosas que os portugueses deram à humanidade. Comê-lo quentinho e polvilhado com canela vai te elevar aos céus. É uma experiência quase divina. Boa parte da doceria portuguesa, inclusive, nasceu em ambiente religioso, nos claustros, pelas mãos de freiras. Com raríssimas exceções (como o pastel de nata, criado no Mosteiro dos Jerónimos, em Belém), a doçaria conventual era basicamente atividade feminina, servia para complementar a renda do convento e alegrar o paladar das irmãs em dias de festa. Graças ao açúcar do Brasil, essa arte se desenvolveu e deu resultados deliciosos. Aliás, graças ao açúcar da capitania de Pernambuco, que foi o maior e principal provedor do ouro branco consumido em Portugal durante o século XVI e até a primeira metade do XVII. Aí, outros estados como Maranhão, Paraíba, Sergipe e Bahia passaram também a produzir com expressividade, dando início ao emblemático período do Nordeste Açucareiro, às custas de muito sangue dos negros escravizados pelos senhores de engenho. Mas, isso é assunto para um outro post.

Se não foram feitos na pastelaria famosa em Belém, o nome é pastel de nata

O fato é que o pastel de nata é o doce português mais conhecido no Brasil. A confeitaria de Portugal, no entanto, e para minha surpresa, é muito rica. Não de ingredientes, já que praticamente todas as sobremesas tugas só levam gema e açúcar, com uma variaçãozinha aqui, outra ali. Mas de criatividade. É impressionante a variedade de doces completamente diferentes feita a partir desses dois produtos principais. Morando em Portugal, e formiguinha que sou, não perco a chance de experimentar algo novo. E esse universo é beeeem vasto. São centenas de tipos, basicamente cada ordem religiosa tinha os seus e mantinha as receitas guardadas até a morte. Muitos doces se perderam porque não havia o hábito de anotar e quando a última religiosa de um convento batia as botas, levava o passo a passo com ela para o túmulo. Ainda assim, eu precisaria viver aqui uns vinte anos para provar todos os preparos que sobreviveram e os modernos que foram sendo inventados com o tempo.

Pastéis de Belém e pastel de nata da Manteigaria, ambos em Lisboa

CURIOSIDADE – Todo pastel de Belém é um pastel de nata, mas nem todo pastel de nata é pastel de Belém, sabia? Explico. Apenas a confeitaria Pastéis de Belém, no bairro de Belém, em Lisboa, possui os direitos sobre esse nome e pode chamar assim o doce – um creme, feito com gemas, açúcar e leite, cozido dentro de uma massa folhada. É como o champanhe, que só tem essa alcunha se foi produzido em Champanhe, na França. Em outro caso é espumante, frisante, cava (na Espanha). Por isso, se você pedir um pastel de Belém em qualquer outro lugar do território português que não seja esse lugar específico da capital, o vendedor vai, gentilmente, mandar você pegar um trem até lá.

Mas, o mundo doceiro português é bem mais que pastel de nata.
Estes são os que eu já provei e fotografei (um minuto de silêncio para os que eu devorei antes de terem a chance de ser registrados).

Fios de ovos

Esse é um doce feito com calda de açúcar e gemas. Fica com esse aspecto de palha porque o creme passa por um funil antes de cozinhar. Eu acho super bonito e em Portugal é bem comum em mesas  festivas, como a natalina. Os fios ou ovos reais são servidos sozinhos ou de base para outros doces, como a lampreia de ovos da foto (repararam que tem olhos, nariz e boca ali?), que pode levar cerejas, amêndoas, figos, etc.

Manjar branco

Brasileiros podem torcer o nariz para esse doce (também conhecido como maminha de freira), que leva farinha de arroz, leite, açúcar e frango desfiado… Mas, ele é bom. Tem um sabor bem inocente, pouco açucarado, uma textura de papa e uma apresentação bem bonita. É servido num pratinho de barro e se come de colher. O preparo medieval ainda é bastante comum em Coimbra e dizem que no tradicional café A Brasileira se come um manjar fenomenal.

Pastel de Tentúgal

Ai, esses pastéis são amor demais. ♥ E de um uma elegância! A massa filo é super fina e estaladiça, recheada com doce de ovos (gemas cozidas com açúcar em ponto de calda). Simples e delicioso. É um dos muitos doces portugueses com indicação geográfica protegida (IGP), ou seja, é preciso ser produzido na região que leva o nome. A doceria A Pousadinha tem os pastéis mais famosos do lugar, bem pertinho de Coimbra.

Ovos moles de Aveiro

Aveiro fica a 40 minutos de trem partindo do Porto e tem tradição na atividade pesqueira. Por isso, os Ovos Moles de Aveiro, outro doce português com IGP, tem formato de conchas e animais marinhos. Apenas nessa cidade o doce de ovos é servido assim, com casquinha de hóstia e temas aquáticos. É delicioso.

Brisas do Lis

Doce de ovos (gema e açúcar) turbinado com farinha de amêndoas. Fantástico! A textura lembra muito a de um quindim brasileiro, mas os pedacinhos no creme e a base crocante de amêndoas dão um plus. Dos meus doces favoritos por aqui.

Pastel de nata brasileiro

Substitua a massa folhada do pastel comum por uma de farinha de trigo, coloque creme de nata tradicional e adicione nozes. O resultado é felicidade. Essa é uma invenção mais moderna e o engraçado é que eu NUNCA vi pra vender no Brasil. No entanto, aqui, pelo menos no Porto, é bem fácil de encontrar. Prefiro o original, mas esse é bom demais também.

Paciências

Bombons feitos com nozes, vinho do Porto, açúcar e coco. Típicos dos conventos da região de Louriçal, que fica a 40 minutos de carro de Coimbra. A descrição é bem apetitosa, uma pena o gosto não seguir no mesmo caminho.

Pingos de tocha

Sabe os fios de ovos que você viu lá no começo? Pronto. Os pingos de tocha são pequenos aglomerados deles só que regados com glacê de açúcar e limão. Doce bem doce, comum em Coimbra e Amarante.

Queijadas

Queijadas são diferentes da queijadinha brasileira. Enquanto a nossa leva coco e até leite condensado, a portuguesa tem uma base feita com farinha e manteiga e é recheada com um creme de-li-ci-o-so de queijo fresco cremoso, gemas e açúcar. As mais famosas são as de Sintra, contudo é fácil de encontrar em Portugal inteiro. Nem sempre boas, é verdade. Mas vai testando. Faz mal não. 🙂

Leite-creme

Leite-creme é uma sobremesa super tradicional portuguesa, uma espécie de crème brûlée francês, com casquinha de açúcar pra quebrar, só que na lista de ingredientes vai farinha e raspas de limão. A imagem, acreditem, é muito fiel ao gosto.

Dá o play pra ver como é linda (e segue lá no Insta):

Ainda quero provar os pastéis de Santa Clara, o pão de ló de Ovar e os travesseiros de Sintra. Alguma outra sugestão?

Milenna Gomes

Criadora do NSC, Milenna é jornalista de gastronomia e mestranda em história da alimentação na Universidade de Coimbra. Recifense vivendo em Portugal. Críticas e sugestões: contato@naoseicozinhar.com

2 Comentários

  • Responder março 30, 2017

    Denisabel Lisboa

    Amo Pingos de Tocha (conhecia como Tocha Dourada). Mas só como em São Paulo. Bem que podia ter em Recife…

  • Responder março 30, 2017

    Rui Almeida

    Deve provar os queijinhos de amêndoa e as Trouxas de Ovos

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